"A Verdadeira História de Dorys Leine"

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Há várias maneiras de classificar uma história. Modernamente há a tendência a categorizar obras de acordo com as origens de seu autor. Ou com o público a que se destina. Assim, ao tomar em mãos este romance, haveria quem preferisse estar diante da obra de um médico destinada a público cujo anseio é edificar-se.

Escritores médicos e autoajuda são categorias em alta, merecedoras mesmo de estantes exclusivas nas livrarias. Danilo Carneiro parece mesmo brincar com essa tentação, dando-lhe azo. Confesso que de início sucumbi a ela, ao mesmo tempo em que me deixei intrigar pelo curioso nome da personagem central. Esse conjunto vai nos empurrando em direção à sina fatídica de cada personagem.

Ao leitor mais atento, a esta altura já terá surgido à imaginação o conhecido conceito de Bildungsroman (romance de formação). Por meio das aventuras da pequena Dorys, somos levados às suas descobertas sobre a vida, ao processo de formação de seu caráter e aos caminhos de seus sonhos e desejos. Nesse ponto, nosso autor, médico por formação, tem o condão de urdir sua prática no trato das doenças da alma com a narrativa das descobertas de Dorys.

A identificação com a heroína é imediata. A construção de Dorys Leine retoma a tradição goethiana com seu Werther – ou talvez, ainda mais apropriadamente, a tradição iniciada há um milênio com Avicena e o andaluz Ibn Tufail, ao descrever a transformação do pequeno Hayi, em O filósofo autodidata.

Nada melhor, portanto, que ouvir-lhe as histórias. E ouvir com atenção, com o interesse de quem quer penetrar-lhe a alma, conhecer-lhe os recônditos onde talvez nem o paciente nunca tenha estado. E essa trajetória pela alma incógnita Danilo nos devolve agora na forma deste romance.

Na narrativa, o autor nos apresenta todo um catálogo de caminhos, desvios e desvãos da alma humana, presentes em personagens curiosos. A lucidez e conhecimento da alma humana se manifestam em cada situação descrita nas páginas que o leitor tem em mãos. Para além do prazer literário, acompanhar a formação espiritual de Dorys Leine é vivenciar um pouco de nossa própria maturidade